Interview: Há algo interessante na banda 'MOURN'

by on quinta-feira, 8 de janeiro de 2015



Ano passado eu conheci uma banda de Barcelona muito interessante chamada 'Mourn', o nome é bem sugestivo e pontual quando vamos nos remeter a sonoridade do grupo, uma melancolia aguda e uma agressividade ácida do mundo post. Essa coisa adolescente que eu amo é bem viva no álbum deles, de mesmo nome, que inclusive está na minha lista de melhores do ano. Ouvir o álbum tem a mesma sensação daquela tragada no cigarro depois de sair de um bar qualquer chutando o que vê pela frente, meio que o prazer saboreando a raiva.

XXME: Vocês querem se introduzirem ao nossos leitores? Os brasileiros são bem loucos em relação a novos sons.

MOURN: Nós somos uma banda de Barcelona. Somos Carla, Jazz, Leia e Antonio. Começamos a tocar porque Carla e Eu (Jazz) nos conhecemos no ensino médio e queríamos fazer uma banda. Leia é a minha irmã mais nova e Antonio é um grande amigo meu desde que tínhamos 12 anos. 

XXME: Eu ouvi o álbum de vocês, e percebi que estão colocando vários gêneros no trabalho, que é bem agressivo e melancólico ao mesmo tempo. Poderia me contar mais sobre o processo do 'Mourn'?

MOURN:  Nós costumamos escrever quando estamos com raiva ou tristes para então colocarmos tudo para fora, é uma boa terapia e também nos ajuda a crescer como pessoa. Nós gostamos de tocar de tudo um pouco e queremos continuar sendo assim até o máximo que pudermos. Na maioria das vezes as músicas saem quando começamos a improvisar! Primeiro Carla e eu nos encontramos, nós improvisamos e encontramos alguma coisa que nós gostamos para assim começar a trabalhar. As letras saem muito rápido e naturalmente. Quando nós temos um som pronto - ou quase pronto -, nós nos encontramos, os quatro, para a Leia e o Antonio ajudarem e fazerem parte do processo. Nós achamos que essa é uma boa estrutura, eles apenas fazem qualquer coisa que acham que irá soar bem no trabalho e quase sempre acontece. Nós nos conectamos de uma forma muito boa e o processo sempre é interessante.



As influências dos jovens são animais, Patti Smith, Nirvana, Joy Division e Iggy Pop. E eu vejo muito de cada um neles, consigo visualizar a mesma poética da Patti nos seus primeiros trabalhos ao ouvir o som deles e consigo captar a mesma tensão e juventude do Kurt, do Nirvana em si, ao me submeter a viagem de 'Dark Issues', uma das melhores do trabalho.

A banda tem três garotas e um garoto, e é bem visível a energia feminina exalando na construção musical. Mesmo que talvez não seja proposital, é algo que simplesmente... sai.

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XXME: O que vocês acham sobre o feminismo na música? Em 2014, muitos tópicos foram exatamente sobre isso. Muitos artistas como Beyoncé, Lorde e todos esses cantores mainstream falaram sobre o feminismo, mas em uma incessante diferente visão. Gostaria de ouvir a opinião de vocês sobre.

MOURN: Bem, é óbvio que temos uma necessidade de expressarmos nós mesmos sobre o que estamos preocupados. Nós achamos que é importante termos a luta contra a descriminação de gênero, porque é uma coisa que realmente nos irrita. Música é uma forma de expressão que várias pessoas tem acesso, então se você está inquieto com alguma coisa e quer por para fora, apenas faça uma música sobre, é uma grande forma de conseguir fazer isso. Eu não sei sobre a opinião da Beyoncé ou da Lorde, ou desses artistas porque não os acompanho, então não queremos comparar muito a opinião deles.

XXME: Qual é o grande objetivo de vocês como uma banda? Eu realmente amo esse ar independente de vocês, mas estou bem curioso com o futuro da banda.

MOURN: Nós só queremos tocar! É a unica coisa que nos preenche e que amamos mais, então nós só queremos fazer isso. Uma grande oportunidade foi apresentada para a gente nos últimos meses para continuarmos fazendo o que fazemos, então a questão é só trabalhar duro.


XXME: É interessante observar o visual de vocês, assustadoramente obscuro e misterioso. A capa do álbum é doentia. Como foi o processo estético da capa? Vocês tem alguma inspiração quando a questão é a estética ou sei lá, vocês não pensam sobre isso?

MOURN: A capa é uma foto tirada pela Lita Bosch. Ela é uma fotografa de Barcelona (agora vivendo em Londres) que a Carla conheceu e que realmente curtiu o trabalho. Um dia ela conversou com a gente e disse que amaria tirar algumas fotos nossas e de fazer um porta retrato. No dia que estavamos mixando nosso LP, ela veio e tirou algumas fotos nossas do lado de fora do estúdio, nós amamos o que ela fez e achamos que seria perfeito para a capa.

Nós não pensamos muito nessa coisa estética, nós só somos nós mesmos. Carla ama fotografia, então ela fica tirando fotos o dia inteiro, e ela é bem dark e isso reflete muito nas nossas fotos porque as fotos são exatamente ela, são honestas e sinceras, nós não queremos fingir nada, sabe? Queremos ser o que nós somos.

Essa é a capa:

XXME: Eu sempre estou procurando músicas novas, vocês tem algum artista que tenha captado a atenção de vocês e que gostariam de dividir comigo?

MOURN: Bom, eu ouvi recentemente sobre uma banda da Filadélfia chamada Alex G. Uma amiga nossa nos mostrou, nós não ouvimos tudo que eles tem, mas o que ouvimos soou bem interessante.

Eu pedi para eles escolherem uma foto que representassem a banda, e foi feito!



"Isso representa a banda. É uma foto que a Carla tirou algum tempo atrás. É a minha geladeira, 'Cande Mourn' é uma piada que o meu pai fez sobre o nosso nome, relacionado a um esquisito comediante aqui da Espanha, Chiquito. E também gostamos de South Park e temos esses imãs da série. Nós estamos sempre brincando, então isso nos representa. Minha geladeira nos representa pois sempre que Carla vem para a minha casa, ela pede por queijo, e isso está dentro dela."

Eles são tão interessantes justamente por esse cruzamento da inocência com essa voraz musicalidade. Fascinado.

Para acompanhá-los basta curtir a página do Facebook deles e se quiserem ouvir o álbum completo, corre que tem no Spotify!


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